Coaching no contexto do trabalho comunitário

AUTOR: Lut Caenen

“Be the change you want to see in the world” (Mahatma Gandhi)
Com o apoio da CIG e do Governo Civil foi desenvolvido o projecto-piloto “Cidadania participativa – do local para o global e do global para o local”1 pela Associação Cultural Moinho da Juventude no bairro da Cova da Moura.
No âmbito deste projecto foi iniciado um ciclo de coaching de “Agentes de Interligação” para a prevenção da violência doméstica que rentabiliza o “trabalho em tandem2” do profissional em conjunto com @ técnic@ da experiência3 nas intervenções em situações de violência doméstica.
Este primeiro ciclo decorreu no próprio bairro da Cova da Moura entre Novembro de 2011 e Abril de 2012. Participaram dois tandens, ambos compostos por uma profissional e um técnico da experiência, sendo o último num caso uma mulher e no outro um homem. A coach teve apoio de uma técnica da experiência que facilitou a integração da coach no contexto do trabalho d@s “Agentes de Interligação”. Alguns dos temas explicitamente focados foram o do género, da violência (doméstica) e do recurso ao portfólio como meio de auto-reflexão.
Uma pessoa, que faz a experiência da auto-reflexão e do desenvolvimento de um maior potencial seu, tem maior capacidade e disponibilidade para compreender a história da vida das outras pessoas e para acompanhá-las no seu processo de desenvolvimento. Cresce a consciência social da profunda interligação que une todas as pessoas.
Através de um diálogo interactivo que tem uma função de empowerment, os participantes percebem que é possível operar uma transformação interior, alargando assim a sua visão do mundo.
Neste processo de transformação é revisto o conceito do gender. O masculino e o feminino são papéis que podem ser integrados numa totalidade que ultrapassa a dualidade. Tal como o Oriente o concebe, há complementaridade entre os princípios de Yin e de Yang.
Também se debruça sobre o tema da violência, doméstica e outra. Trabalha-se sobretudo com a ressonância de situações de violência exterior com a violência interior que vive em cada um. É essa a violência “passiva” que traz em si a origem de todas as explosões de violência.
Este aspecto mostra a amplitude da interligação entre todas as pessoas. Todas as pessoas têm nelas, nem que seja em potência, todos os aspectos e características da realidade observada no exterior. Tal como a ciência actual o prova: tudo e todos estão profundamente conectados.
Isto apela para um grande sentido de responsabilidade. Cada um é responsável pelo todo e tem de começar por si próprio. A atitude de cada um é implicada em qualquer intervenção social.

Resultados
O ciclo de coaching pode revelar-se parte integrante de um projecto de grande alcance em que o acompanhamento de vários tandens de “Agentes de Interligação” permite criar uma rede activa na prevenção da violência doméstica. Alem disso apoia os tandens na sua própria intervenção com os moradores em casos declarados de violência doméstica e contribui para o melhoramento da relação interpessoal dentro dos tandens.
A auto-descoberta proporcionada pelo coaching representa um “empowerment” dos próprios técnicos, sobretudo em situações de stress, e uma maior disponibilidade para lidar com as pessoas.
Sensibilizaram-se pelos vários tipos de violência e a ressonância entre a violência exterior e interior. Melhoraram a qualidade da sua intervenção.
Foi sobretudo em casos de violência (doméstica) que foi experienciado o tema do género. Em geral é o homem que exerce violência física. Os tandens eram essencialmente femininos e as coachees aperceberam-se do papel do género na sua própria reacção à violência e sobretudo aos agressores. Entrando em contacto consigo própri@s a um nível mais profundo, perceberam que o masculino e o feminino são complementares e a violência não é o apanágio de uns em detrimento dos outros.
A tomada de consciência da interligação, de todos os seres humanos, alertou para a capacidade e a responsabilidade de todos.
A elaboração de um portfólio foi encarada como um meio de auto-reflexão eficaz para @s própri@s técnic@s e também para certos grupos de pessoas com quem trabalham.

Conclusão
Através do processo de coaching dirigido a pessoas que têm uma intervenção na sociedade vai-se a pouco e pouco aumentar a consciência de todos. O trabalho interior abre para uma maior interligação com toda a comunidade e aumenta a disponibilidade para interagir de uma maneira mais livre e mais respeitosa para o bem de todos.

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1 POPH – 9.7.3
2 Trabalho em tandem = trabalho em complementariedade. Um tandem é uma bicicleta com 2 lugares.
3 Técnicos de experiência formados em exclusão social são pessoas que experimentaram pessoalmente a exclusão, que conseguiram lidar com essa experiência e que assim estenderam-na para uma experiência mais alargada sobre a exclusão. Adquiriram atitudes, capacidades e conhecimento através da sua formação de modo a utilizar a sua experiência de exclusão profissionalmente em qualquer área de luta contra a exclusão.

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