Nós e os outros – Comunicação Não–Violenta na Associação Cultural Moinho da Juventude

AUTOR: Lut Caenen

Eu e o outro
O mundo em que vivemos parece duro. O mundo em que vivemos É duro, para ti, para mim, para ele, para ela. Quanta falta é que não sentimos? Falta de tudo: falta de meios para sobreviver, falta de respeito, falta de segurança, falta de saúde…. Quanta solidão é que não vivemos ou vemos à nossa volta? Às vezes o vazio grita dentro de nós, às vezes o vazio à nossa volta aperta-nos o coração e a garganta. Parecemos náufragos na nossa ilha deserta.
Pois, parecemos ilhas desertas, territórios isolados uns dos outros que nem por nós são povoados. Estamos ausentes de nós mesmos. Vivemos numa era de separação, de individualismo, de materialismo onde a nossa integridade física e moral, a nossa ligação com o outro e com a sociedade, a nossa sobrevivência no planeta estão em risco. O mal-estar que sentimos no nosso dia-a-dia reflete o desamparo que a humanidade sente perante os grandes desafios a nível planetário: os excessos do capitalismo financeiro, a crescente desigualdade social com a extrema pobreza de uns a contrastar com a gritante riqueza de outros, as ameaças ecológicas.
O surto de violência entre indivíduos, entre grupos sociais, a escalada da violência institucional são a expressão do mal-estar. Por seu lado, essas formas de violência aumentam o mal-estar. Violência nunca leva a nada a não ser à violência.
Uma mudança radical é precisa, urgentemente.

Comunicação não-violenta
Marshall Rosenberg, um psicólogo americano, desenvolveu um método de comunicação não–violenta. Essa forma de comunicação respeita quem fala e quem é ouvido profundamente, nas suas necessidades como ser humano.
Na base da violência está uma visão do outro como “o inimigo”. Numa dada altura da evolução da humanidade foi introduzido o modelo de oposição entre os seres humanos. Os que se consideravam “superiores” achavam que os outros, que não se regiam pelos mesmos valores, eram“inferiores”. Os que se consideravam como “certos” ou “bons” achavam que os outros estavam “errados” ou eram “maus”.
A linguagem que critica, que generaliza, que põe etiquetas nas pessoas é o reflexo desta imagem do “outro como inimigo” e traz, por isso, já as sementes da violência em si. É essa a linguagem à qual nos habituámos desde sempre.
Sair desta linguagem que nos corta da vida, é possível quando dirigimos a nossa atenção para as sensações e necessidades do ser humano que fala e ouve.
Marshall Rosenberg distingue os seguintes aspectos na comunicação não- violenta: observar o que se passa sem julgar, expressar as suas sensações e emoções, expressar as suas necessidades e pedir o que precisamos para que a vida se torne mais satisfactória.
Saber expressar-se com esta atitude e saber acolher o que o outro nos comunica e nos pede com esta mesma atitude de empatia, faz com que nos sintamos interligados, conectados. O estar “presente” a nós e aos outros dá-nos a sensação de “nós” a um nível humano muito profundo. É reestabelecida a ligação a nós, aos outros, à sociedade e a tudo o que nos rodeia. A união substitui a separação.

A comunicação não-violenta no Moinho da Juventude
No âmbito dum projecto CIG estão a decorrer duas iniciativas de comunicação não-violenta na Associação Cultural Moinho da Juventude.
A primeira iniciativa é uma série de encontros entre a PSP de Alfragide e moradores do bairro de Cova da Moura. Da parte da PSP participam a comandante, o sub-comandante, e dois agentes de proximidade. O bairro é representado por animadores do Moinho.
Nas sessões que estão a decorrer analisamos as formas de violência com que se confronta e a linguagem subjacente à violência. Implementamos a não-violência na comunicação saindo do esquema das acusações mútuas para ir para uma plataforma de entendimento.
No próximo dia 8 de Novembro decorrerá no âmbito da trienal de Arquitectura um workshop entre a PSP e os moradores do bairro de Cova da Moura com o título “Medos e outras ficções”.
A segunda iniciativa de comunicação não-violenta decorre com a Rede 8 de Março que junta diversas associações feministas.
O foco também aqui é o de substituir a imagem do “inimigo” pela inclusão. Ao desconstruir a linguagem automática de generalizações e de críticas (escondidas) tornamo-nos conscientes que o verdadeiro empowerment das mulheres, e de qualquer pessoa, se encontra na responsabilização pelo que dizemos e fazemos. Esta atitude para connosco e com os outros tira-nos de uma situação de poder SOBRE o outro para uma posição de poder COM os outros.
As sessões de trabalho culminarão num workshop de comunicação não- violenta no âmbito de um fim-de-semana dedicado ao combate à violência contra as mulheres nos dias 23 e 24 de Novembro.

Um outro mundo é possível, se a gente quiser
Há cada vez mais pensadores e cientistas que salientam a urgência de alterarmos o nosso comportamento para garantir a sobrevivência da humanidade no nosso planeta. Se não dermos um salto qualitativo a humanidade será confrontado com um cenário de caos e maior violência. O salto qualitativo é possível. Passa por uma transformação pessoal em que nos tornarmos responsáveis pelo que dizemos e pelo que fazemos e aplicar a mesma atitude de empatia e presença a todos os que nos rodeiam. Isto cria uma verdadeira sensação de união, de interligação connosco, com tudo e com todos.
Pois, a mensagem do Moinho da Juventude tem sido sempre: Um outro mundo é possível, se a gente quiser”!