Sinergias e Redes

AUTOR: Godelieve Meersschaert

“Fui eu que o construí” diz o Luís, com muito orgulho, apontando para o Espaço Jovem do Moinho da Juventude. Tó Pinto, mestre-de-obras, lembra- se como, em meados dos anos ’90, o Luís “baldava-se” repetidas vezes nas sessões de formação que orientava no Moinho. Era um projecto onde 7 animadores participavam numa formação em contexto de trabalho, acompanhando cada um, o processo de desenvolvimento de dois jovens “pombos correio” de 14 – 15 anos, instrumentalizados por adultos para entregar de bicicleta os “pacotinhos de droga” nos arredores da Cova da Moura.
Em 2006, 10 anos mais tarde, uma antropóloga entrevistou os jovens “pombos”, entretanto adultos, que participavam neste curso: foi impressionante como este curso ainda para muitos, com caminhadas complicadas, significou uma luz – para alguns “a única” – na sua vida. Tanto as conversas sobre sexualidade, as interacções com os animadores e formadores, as aprendizagens do português e da matemática relacionadas com a construção do espaço são memórias que ficaram gravadas: Para alguns possibilitaram avanços na vida profissional e produzem um sorriso profundo ao lembrar.
A opção para a construção do Espaço Jovem, em conjunto com os animadores e os jovens, baseou-se numa reflexão sobre metodologias das aprendizagens (formalização de conhecimentos informais) e põe em prática a Teoria de Interligação que constitui o fundamento do trabalho do Moinho da Juventude.
A teoria de interligação é alicerçada numa filosofia ampla. Anouk Depuydt elaborou-a no seu doutoramento1 “Re-ligar” como resposta à “de-linq- uência”2: um ponto de partida para uma criminologia com ética, com uma abordagem sistémica e ecológica.
No Moinho optamos por reforçar as 5 ligações que são essenciais para todos nós e que significam, por isso mesmo, a prevenção fundamental da delinquência: a ligação com o próprio corpo e as emoções; a ligação com a cultura de origem (as nossas raízes); a ligação com a cultura dos outros; a ligação com os objectos, os equipamentos; a ligação com a natureza e o ciclo de vida.
Concretizamos este reforço dos laços nas valências do Moinho em conjunto com os pais, vizinhos e moradores:
Trabalhamos a caixa de emoções e a capacidade de exprimir o medo, a alegria, a tristeza, a raiva. Desde a creche são utilizadas as técnicas da massagem shantala. As sessões de ginástica, atletismo, basquete e dança promovem o bem-estar com o próprio corpo e o encontro com outros grupos de crianças/jovens e adultos.
As crianças da creche levam sementes para a horta, onde crescem uma oliveira, um dragoeiro, feijão congo, hortelã e outras tantas ervas aromáticas, flores, hortaliças, árvores. Fazem, em conjunto com os colaboradores, doce com os figos do quintal. Vão percebendo as estações, vão observando o ciclo de vida do bicho de seda, vão reflectindo sobre a vida e a morte.
O batuque Finka Pé e o Kola San Jon, expressões culturais proibidas no tempo colonial, conquistaram Carlos Saura3, seduziram Rui Simões a fazer um documentário4, procuram uma harmonia com o Tenchi Tessen (a arte do leque), no Dojo de Georges Stobbaerts e atam laços onde menos se espera.
Intercâmbios, as visitas SABURA5, festas e encontros proporcionam o encontro com outras culturas europeias e outros mundos. Residências, no nosso estúdio, de grupos Hip Hop de subúrbios de Lisboa produziram um CD com bastante qualidade. Realizou-se um encontro com um grupo de jovens de Toulouse e de Liège. Na avaliação surgiram bastantes pontos positivos, mas igualmente falhas no trabalho.
Colaborámos com a Trienal de Arquitectura. Acompanhámos grupos de finalistas de arquitectura do Norte, Centro e Sul de Portugal. Os seniores do bairro sentiram orgulho em explicar aos arquitectos, no Museu da Electricidade, como traçaram as ruas, como fizeram as lajes, num “djunta mo”6. Os jovens do “Bem Passa Ku Nos” visitaram a exposição e gostaram imenso: não conheciam o Museu da Electricidade, percorreram a história da nossa energia, apreciaram com muito interesse as maquetas do seu bairro.
Não obstante todos estes esforços para estabelecer laços e promover a sinergia, constatamos que a espiral da violência pode subir rapidamente. O fosso entre decisores e quem tem o poder é demasiado grande. Quem tem o poder tem dificuldade em partilhá-lo. Ou partilha somente decisões secundárias e de pouco importância.
Consciente do abismo que existe na sociedade e no crescimento deste abismo, apostamos no trabalho em tandem7 das pessoas que tiveram oportunidade de estudar a nível do ensino superior e das pessoas que viveram a experiência de pobreza/migração. A reflexão sobre a história de vida pessoal, o alargamento desta reflexão ao nível do grupo e a sua contextualização na sociedade, abrem os olhos para uma Cidadania Participativa. Desde os anos 80 que apostamos nesta sinergia para criar novos/outros níveis de encontro e procura. É um movimento que está a fervilhar nos Países Baixos, na Alemanha, na Bélgica, na Bulgária. Trabalhamos com 7 parceiros europeus, em conjunto, no Projecto Leonardo “The Missing Link”8
A Associação Moinho da Juventude faz parte da Comissão de Bairro, colaborou na redacção e subscreveu os documentos da Comissão de Bairro:
Enviamos, como Comissão de Bairro, em 20/01/2011 um e-mail à Câmara Municipal de Amadora, que continua sem resposta:
Na sequência da reunião de Acompanhamento efectuada no dia 25 de Novembro de 2010, e uma vez que, até ao momento, ainda não nos foi dada resposta à questão aí colocada relativa ao edifício que se encontra em construção nos terrenos da Santa Casa da Misericórdia da Amadora, vimos solicitar que nos esclareçam algo sobre o assunto.
Com efeito, este edifício está a ser construído dentro da área delimitada para a qualificação do Bairro Alto da Cova da Moura, na qual estão vedadas novas construções ou alterações das existentes.
Repetidas vezes tem sido a Comissão de Bairro abordada por moradores para saber dos motivos pelos quais não lhes é permitido fazer pequenas reparações às suas habitações, nomeadamente, colocação de telhados, não ampliando as suas casas, enquanto foi autorizada a construção de um edifício de raiz dentro da área delimitada.
Reforçando o já acima exposto salienta-se o caso de um parceiro da Comissão de Bairro, a quem não foi permitido a construção de um equipamento social de raiz, nomeadamente uma creche a qual seria uma mais-valia para as condições de bem-estar e educação das crianças, melhorando assim a qualidade de vida dos moradores.
Os técnicos do consórcio Vasco da Cunha/TIS estão a planear o Plano de Pormenor para a Cova da Moura desde 25 de Outubro de 2010. Nestes sete meses e meio apresentaram um levantamento muito incompleto dos equipamentos existentes no bairro; quiseram iniciar um Estudo sócio- económico dos moradores da Cova da Moura sem pedir licença à Comissão de Protecção de Dados; apresentaram uma proposta para a demolição de 61% das construções; estão a exceder todos os prazos que apresentaram, quando a duração mais curta foi o elemento decisivo para ganharem o concurso internacional.
Como moradores estamos muito preocupados com esta situação. A Comissão de Bairro apostou no consórcio criado pela Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa, que com a sua experiência e conhecimento do bairro, poderia ter feito um Plano de Pormenor envolvendo os moradores no processo.
Pretendemos a qualificação do nosso bairro e nisto, apostamos em conjunto com as outras associações da Cova da Moura. Convidamos-vos a visitar o nosso bairro para descobrir a alma, o djunta mo, a vida destes moradores.
Para o receber, está aí, na entrada do nosso bairro, o Martin Luther King “eu tenho um sonho”.
Estou num lugar mágico de vida e sensibilidade.
Isto é que é Portugal. Um lugar mestiço. Faz-me lembrar as mantas de retalhos que minha mãe fazia.
A nossa sociedade é isto e não apenas aquele quotidiano das pessoas esmagadas e inexpressivas que vemos nos transportes públicos.
A festa também faz parte da vida e estas pessoas estão vivas. Isto é vida.
O humano é divino.”
António Ramos Rosa
28/1/2006
Inauguração do Centro de Formação da Ass. Cult. Moinho da Juventude Centro de documentação “Tomkiewicz”
Biblioteca “António Ramos Rosa”

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