Nós e os outros – Comunicação Não–Violenta na Associação Cultural Moinho da Juventude

AUTOR: Lut Caenen

Eu e o outro
O mundo em que vivemos parece duro. O mundo em que vivemos É duro, para ti, para mim, para ele, para ela. Quanta falta é que não sentimos? Falta de tudo: falta de meios para sobreviver, falta de respeito, falta de segurança, falta de saúde…. Quanta solidão é que não vivemos ou vemos à nossa volta? Às vezes o vazio grita dentro de nós, às vezes o vazio à nossa volta aperta-nos o coração e a garganta. Parecemos náufragos na nossa ilha deserta.
Pois, parecemos ilhas desertas, territórios isolados uns dos outros que nem por nós são povoados. Estamos ausentes de nós mesmos. Vivemos numa era de separação, de individualismo, de materialismo onde a nossa integridade física e moral, a nossa ligação com o outro e com a sociedade, a nossa sobrevivência no planeta estão em risco. O mal-estar que sentimos no nosso dia-a-dia reflete o desamparo que a humanidade sente perante os grandes desafios a nível planetário: os excessos do capitalismo financeiro, a crescente desigualdade social com a extrema pobreza de uns a contrastar com a gritante riqueza de outros, as ameaças ecológicas.
O surto de violência entre indivíduos, entre grupos sociais, a escalada da violência institucional são a expressão do mal-estar. Por seu lado, essas formas de violência aumentam o mal-estar. Violência nunca leva a nada a não ser à violência.
Uma mudança radical é precisa, urgentemente.

Comunicação não-violenta
Marshall Rosenberg, um psicólogo americano, desenvolveu um método de comunicação não–violenta. Essa forma de comunicação respeita quem fala e quem é ouvido profundamente, nas suas necessidades como ser humano.
Na base da violência está uma visão do outro como “o inimigo”. Numa dada altura da evolução da humanidade foi introduzido o modelo de oposição entre os seres humanos. Os que se consideravam “superiores” achavam que os outros, que não se regiam pelos mesmos valores, eram“inferiores”. Os que se consideravam como “certos” ou “bons” achavam que os outros estavam “errados” ou eram “maus”.
A linguagem que critica, que generaliza, que põe etiquetas nas pessoas é o reflexo desta imagem do “outro como inimigo” e traz, por isso, já as sementes da violência em si. É essa a linguagem à qual nos habituámos desde sempre.
Sair desta linguagem que nos corta da vida, é possível quando dirigimos a nossa atenção para as sensações e necessidades do ser humano que fala e ouve.
Marshall Rosenberg distingue os seguintes aspectos na comunicação não- violenta: observar o que se passa sem julgar, expressar as suas sensações e emoções, expressar as suas necessidades e pedir o que precisamos para que a vida se torne mais satisfactória.
Saber expressar-se com esta atitude e saber acolher o que o outro nos comunica e nos pede com esta mesma atitude de empatia, faz com que nos sintamos interligados, conectados. O estar “presente” a nós e aos outros dá-nos a sensação de “nós” a um nível humano muito profundo. É reestabelecida a ligação a nós, aos outros, à sociedade e a tudo o que nos rodeia. A união substitui a separação.

A comunicação não-violenta no Moinho da Juventude
No âmbito dum projecto CIG estão a decorrer duas iniciativas de comunicação não-violenta na Associação Cultural Moinho da Juventude.
A primeira iniciativa é uma série de encontros entre a PSP de Alfragide e moradores do bairro de Cova da Moura. Da parte da PSP participam a comandante, o sub-comandante, e dois agentes de proximidade. O bairro é representado por animadores do Moinho.
Nas sessões que estão a decorrer analisamos as formas de violência com que se confronta e a linguagem subjacente à violência. Implementamos a não-violência na comunicação saindo do esquema das acusações mútuas para ir para uma plataforma de entendimento.
No próximo dia 8 de Novembro decorrerá no âmbito da trienal de Arquitectura um workshop entre a PSP e os moradores do bairro de Cova da Moura com o título “Medos e outras ficções”.
A segunda iniciativa de comunicação não-violenta decorre com a Rede 8 de Março que junta diversas associações feministas.
O foco também aqui é o de substituir a imagem do “inimigo” pela inclusão. Ao desconstruir a linguagem automática de generalizações e de críticas (escondidas) tornamo-nos conscientes que o verdadeiro empowerment das mulheres, e de qualquer pessoa, se encontra na responsabilização pelo que dizemos e fazemos. Esta atitude para connosco e com os outros tira-nos de uma situação de poder SOBRE o outro para uma posição de poder COM os outros.
As sessões de trabalho culminarão num workshop de comunicação não- violenta no âmbito de um fim-de-semana dedicado ao combate à violência contra as mulheres nos dias 23 e 24 de Novembro.

Um outro mundo é possível, se a gente quiser
Há cada vez mais pensadores e cientistas que salientam a urgência de alterarmos o nosso comportamento para garantir a sobrevivência da humanidade no nosso planeta. Se não dermos um salto qualitativo a humanidade será confrontado com um cenário de caos e maior violência. O salto qualitativo é possível. Passa por uma transformação pessoal em que nos tornarmos responsáveis pelo que dizemos e pelo que fazemos e aplicar a mesma atitude de empatia e presença a todos os que nos rodeiam. Isto cria uma verdadeira sensação de união, de interligação connosco, com tudo e com todos.
Pois, a mensagem do Moinho da Juventude tem sido sempre: Um outro mundo é possível, se a gente quiser”!

Comunicação não violenta Método: Marshall Rosenberg

OS PRINCÍPIOS DA COMUNICAÇÃO NÃO VIOLENTA

AUTOR: Lut Caenen

Quais são os princípios da comunicação eficaz, da comunicação que faz passar a mensagem de forma que o interlocutor se sinta respeitado e tem vontade de nos ajudar?
Um dos mestres da comunicação não violenta é o psicólogo Marshall Rosenberg. Nascido em Detroit num bairro pobre e particularmente violento, desde muito cedo se interessou pelas formas inteligentes de resolver os diferendos sem passar pela violência. Ensinou e praticou em todas as circunstâncias e em todas as regiões do mundo onde a gestão dos conflitos é indispensável, quer se trate de escolas de bairros desfavorecidos, de grandes empresas em restruturação, do Médio Oriente ou da África do Sul.
O primeiro princípio da comunicação não violenta é substituir todo e qualquer juízo – isto é, toda e qualquer crítica – por uma observação objectiva.
Em vez de dizer “o senhor deu mostras de incompetência”, ou até “este relatório não presta” – o que põe imediatamente a pessoa com quem estamos a falar na defensiva -, mais vale simplesmente ser objetivo e preciso: “Neste relatório, há três ideias que me parecem faltar para comunicar a nossa imagem.” Quanto mais se é preciso e objetivo, mais aquilo que se diz é interpretado pelo outro como uma tentativa legítima de comunicação e não como uma crítica potencial.
O segundo princípio é evitar qualquer juízo sobre o outro a fim de nos concentrarmos inteiramente naquilo que sentimos. É a chave mestra da comunicação emocional.
Se eu falar do que sinto, ninguém pode discutir comigo. Se eu disser: “Estás atrasado, mas que egoísta…”, o outro só pode responder torto à minha afirmação. Em contrapartida, se eu disser: “Tínhamos ficado de nos encontrar às oito e são oito e meia. É a segunda vez este mês; quando isto acontece, sinto-me frustrada e às vezes até um pouco humilhada”, ele não poderá pôr em causa os meus sentimentos. Estes pertencem-me totalmente!
O esforço consiste em descrever a situação com frases que comecem por “eu” em vez de “tu” ou em vez de “o senhor ou a senhora”. Ao falar de mim, e só de mim, já não estou a criticar o meu interlocutor, não o ataco, estou no campo da emoção e por conseguinte no campo da autenticidade e da abertura. Se souber fazer as coisas e se for verdadeiramente honesto comigo próprio, serei até capaz de me tornar vulnerável indicando-lhe como ele me magoou. Vulnerável porque lhe terei desvendado uma das minhas fraquezas. Mas, a maior parte das vezes, é justamente esta candura que vai desarmar o adversário e dar-lhe vontade de cooperar – na medida em que também ele deseja preservar a nossa relação.
Segundo Rosenberg, é ainda mais eficaz não só dizer o que se sente, mas também dar a conhecer ao outro a esperança partilhada que foi desiludida.
“Quando chegas atrasado, quando tínhamos combinado ir ao cinema, sinto-me frustrada porque gosto de ver o princípio do filme. Para mim é importante ver o filme todo.” Ou ainda: “Quando não telefonas durante uma semana, tenho medo de que te tenha acontecido alguma coisa. Preciso saber se está tudo bem.” Ou no contexto do trabalho:”Quando pões a circular um documento com erros de ortografia, fico um pouco embaraçado porque é a minha imagem que está em causa e é toda a equipa que é afetada. A questão da imagem e da reputação é muito importante para mim, sobretudo depois do trabalho que tivemos para que nos respeitassem.”
Por fim formulamos o pedido de ação que satisfaça as nossas necessidades/esperanças. É o pedido daquilo que gostaríamos obter da parte dos outros para tornar a vida, de todos, mais satisfatória. O pedido deve ser formulado de uma maneira positiva, clara e concreta. Quem faz um pedido concreto e claro, tem mais hipótese de conseguir obter o desejado. É preciso lembrar-se que formular um pedido não é fazer uma exigência.
O objetivo da comunicação não violenta não é de mudar as outras pessoas ou o seu comportamento conforme os nossos desejos mas de estabelecer uma relação baseada em honestidade e empatia que acabará por satisfazer as necessidades de cada um.

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Texto baseado em:
David Servan-Schreiber; Curar, pág 207-209
Marshall Rosenberg, Nonviolent Communication, pág. 67-85

Bibliografia:
Marshall Rosenberg; Nonviolent communication. A language of life, Puddle Dancer Press, Encinitas, 2003, 2nd edition
David Servan-Schreiber, Curar o stress, a ansiedade e a depressão sem medicamentos nem psicanálise, Leya, SA, Lisboa, 2012, 3a edição

A “Ficha da comunicação não violenta”

A ficha tem a seguinte sigla: “OLA-CEE”. Estas iniciais resumem os seis pontos-chave de uma abordagem não violenta que vos dá mais hipóteses de obterem o que desejam, quer seja em vossa casa, no emprego, com a polícia, e até com o mecânico da garagem. Vejamos o que significam estas iniciais:
O para Origem. Em primeiro lugar, é preciso ter a certeza de que estamos de facto a dirigir-nos à pessoa que constitui a origem do problema e de que ela dispõe dos meios para resolvê-lo. Por mais que isso pareça evidente, em geral não costuma ser este o nosso primeiro reflexo. Se um colega meu me diz uma coisa desagradável diante de toda a equipa a propósito do meu trabalho, não serve de nada queixar-me depois aos meus colegas ou à minha mãe pelo telefone – apesar de ser aquilo que mais me apetece fazer. Para ganhar o seu respeito e alterar o seu comportamento, é com o meu colega que devo falar. E eu sou a única pessoa a poder fazê-lo. É claro que é muito mais difícil e não me apetece; mas é a única maneira de ser eficaz. É preciso a pessoa dirigir-se à fonte do problema.
L para LUGAR e MOMENTO. É preciso que a discussão decorra num sítio (num “Lugar”) protegido e privado, num momento propício. Geralmente não é boa ideia enfrentar o agressor, mesmo que a nossa queixa não seja violenta, nem em público nem no corredor. Também não se deve ter essa conversa imediatamente, “a quente”, nem quando ele se encontra numa situação de stress. É sempre preferível escolher um local onde se possa falar calmamente e certificar-se da disponibilidade daquele ou daquela a quem dirige a palavra.
A para ABORDAGEM AMIGÁVEL. Para sermos ouvidos, precisamos primeiro de ter a certeza de que vamos ser ouvidos. É preciso tentar pôr o interlocutor à vontade logo nas primeiras palavras, abrir-lhe os ouvidos em vez de lhos fechar.
Ora sabem qual é a palavra mais agradável para começar uma conversa? É o nome da pessoa a quem nos dirigimos. O seu nome: essa palavra, mais do que qualquer outra, parece feita de propósito para atrair a sua atenção. Portanto, seja o que for que tenha a dizer a quem o ofendeu, comece por trata-lo pelo nome, e a seguir diga qualquer coisa simpática, desde que seja verdade. Nem sempre é fácil, mas é importante. Das primeiras vezes, a coisa até nos arranha um pouco a garganta. Porém, vale a pena. A porta da comunicação está agora aberta.
C para COMPORTAMENTO OBJECTIVO. A seguir, é preciso entrar no cerne da questão: referir o comportamento que motiva o nosso descontentamento, limitando- nos a uma descrição do que se passou e mais nada, sem a mínima alusão a um juízo moral que poderíamos fazer. É preciso dizer “Quando fez isto”, e mais nada. Não se deve dizer: “Quando se comportou como um maluco”, mas sim “Quando insistiu para eu sair consigo às tantas da madrugada.”
E para EMOÇÃO. A descrição dos factos deve ser imediatamente seguida da emoção sentida. Nesse momento, é preciso não cair na ratoeira de falar da nossa fúria, que é muitas vezes a emoção mais manifesta: “Quando disse diante de toda a gente que o meu vestido era ridículo (comportamento objetivo), conseguiu irritar-me”, porque a cólera é já uma emoção virada para o outro e não expressão de um ferimento íntimo. É muito mais forte e eficaz falar de si próprio: “Senti-me magoada”, ou “Considerei isso uma humilhação”.
E para ESPERANÇA DESILUDIDA. Poderíamos ficar pela expressão de uma emoção, mas é ainda mais vantajoso prosseguir mencionando a esperança desiludida, ou a necessidade que sentimos e que não foi satisfeita. “Preciso de me sentir segura no emprego, de saber que não serei humilhada nem ferida com comentários cáusticos, especialmente vindos de alguém tão importante como o senhor.” Ou, se se tratar do nosso cônjuge que nos ignorou durante um jantar em casa de amigos: “Preciso de me sentir ligada a ti, de sentir que sou importante para ti, mesmo quando estamos com amigos.”
Conclusão:
Só existem três maneiras de reagir numa situação de conflito: a passividade (ou a passividade-agressividade), a reação mais corrente e menos satisfatória; a agressividade, que também não é verdadeiramente eficaz e é muitíssimo mais perigoso; ou então a “assertividade”, isto é, a comunicação emocional não violenta. É a nós que compete, de todas as vezes, escolher. É a nós que compete aceitar, ou não, o desafio emocional.

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Texto adaptado de: David Servan-Schreiber; Curar, pág 207-213

Bibliografia:
Marshall Rosenberg; Nonviolent communication. A language of life, Puddle Dancer Press, Encinitas, 2003, 2nd edition
David Servan-Schreiber, Curar o stress, a ansiedade e a depressão sem medicamentos nem psicanálise, Leya, SA, Lisboa, 2012, 3a edição

MARSHALL B. ROSENBERG
FOCAR A NOSSA ATENÇÃO NO QUE SE PASSA NOS OUTROS E NO QUE ELES PEDEM

(… ) Quando aprendemos a focar a nossa atenção nas sensações e nas necessidades expressas pelas mensagens dos outros, paramos de receber [essas mensagens] como sendo críticas, ataques, insultos ou julgamentos. O que anteriormente poderia ter sido concebido como tal, passa a ser entendido como a expressão do sofrimento e das necessidades não satisfeitos da outra pessoa.
Podemos receber os quatro passos do processo [de Comunicação Não-Violenta] ao repetir o que ouvimos a outra pessoa dizer e verificando com ela a exactidão da nossa paráfrase. Esse feedback informa a [outra pessoa] sobre a maneira como nós interpretámos a sua mensagem e dá-lhe a ocasião de corrigir-nos no caso de nos termos enganado.
Podemos também fazer perguntas complementares para assegurar-nos de que compreendemos o nosso interlocutor exactamente da maneira como ele o desejava.
a) Podem ser perguntas acerca do que ele está a observar: “ A tua reacção tem a ver com o número de vezes que eu saí na semana passada?”;
b) Podem ser perguntas acerca do que ele sente e das necessidades que estão na origem dessas sensações: “Estás sentido porque terias querido maior apreciação pelo teu esforço?”;
c) Podem ser perguntas sobre o pedido dele: ”Queres que eu te diga mais sobre as razões que me levaram a dizer o que disse?”
Fazendo estas perguntas, adivinhamos em primeiro lugar e em seguida verificamos. Repare na diferença entre este tipo de perguntas e a pergunta na qual simplesmente pedimos informações, como por exemplo: “Estás a referir-te a quê?”, “ Como te sentes?”, “Porque pensas isso?”, “O que queres que eu faça?”.
Ao praticar a Comunicação Não-Violenta devemos também ser receptivos aos pedidos relacionados com as sensações e as necessidades do outro. Imagine por exemplo que um amigo esteja muito em baixo por não ter sido aceite no novo emprego que tanto queria. Manifestamos a nossa empatia pelo desânimo dele e sentimos que ele está à espera de outra coisa, além da nossa empatia. Podemos então verificar o que ele deseja através de uma pergunta deste género: “Queres que te informe sobre outros empregos que eventualmente te poderiam interessar?”, ou “Lamento que não tenhas sido aceite neste emprego. Há alguma coisa que eu poderia dizer ou fazer que te ajudaria nesta situação?”

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Marshall B. Rosenberg, La Communication Non Violente au quotidien, Éditions Jouvence, 2003.
Tradução para português: Lut Caenen

Coaching no contexto do trabalho comunitário

AUTOR: Lut Caenen

“Be the change you want to see in the world” (Mahatma Gandhi)
Com o apoio da CIG e do Governo Civil foi desenvolvido o projecto-piloto “Cidadania participativa – do local para o global e do global para o local”1 pela Associação Cultural Moinho da Juventude no bairro da Cova da Moura.
No âmbito deste projecto foi iniciado um ciclo de coaching de “Agentes de Interligação” para a prevenção da violência doméstica que rentabiliza o “trabalho em tandem2” do profissional em conjunto com @ técnic@ da experiência3 nas intervenções em situações de violência doméstica.
Este primeiro ciclo decorreu no próprio bairro da Cova da Moura entre Novembro de 2011 e Abril de 2012. Participaram dois tandens, ambos compostos por uma profissional e um técnico da experiência, sendo o último num caso uma mulher e no outro um homem. A coach teve apoio de uma técnica da experiência que facilitou a integração da coach no contexto do trabalho d@s “Agentes de Interligação”. Alguns dos temas explicitamente focados foram o do género, da violência (doméstica) e do recurso ao portfólio como meio de auto-reflexão.
Uma pessoa, que faz a experiência da auto-reflexão e do desenvolvimento de um maior potencial seu, tem maior capacidade e disponibilidade para compreender a história da vida das outras pessoas e para acompanhá-las no seu processo de desenvolvimento. Cresce a consciência social da profunda interligação que une todas as pessoas.
Através de um diálogo interactivo que tem uma função de empowerment, os participantes percebem que é possível operar uma transformação interior, alargando assim a sua visão do mundo.
Neste processo de transformação é revisto o conceito do gender. O masculino e o feminino são papéis que podem ser integrados numa totalidade que ultrapassa a dualidade. Tal como o Oriente o concebe, há complementaridade entre os princípios de Yin e de Yang.
Também se debruça sobre o tema da violência, doméstica e outra. Trabalha-se sobretudo com a ressonância de situações de violência exterior com a violência interior que vive em cada um. É essa a violência “passiva” que traz em si a origem de todas as explosões de violência.
Este aspecto mostra a amplitude da interligação entre todas as pessoas. Todas as pessoas têm nelas, nem que seja em potência, todos os aspectos e características da realidade observada no exterior. Tal como a ciência actual o prova: tudo e todos estão profundamente conectados.
Isto apela para um grande sentido de responsabilidade. Cada um é responsável pelo todo e tem de começar por si próprio. A atitude de cada um é implicada em qualquer intervenção social.

Resultados
O ciclo de coaching pode revelar-se parte integrante de um projecto de grande alcance em que o acompanhamento de vários tandens de “Agentes de Interligação” permite criar uma rede activa na prevenção da violência doméstica. Alem disso apoia os tandens na sua própria intervenção com os moradores em casos declarados de violência doméstica e contribui para o melhoramento da relação interpessoal dentro dos tandens.
A auto-descoberta proporcionada pelo coaching representa um “empowerment” dos próprios técnicos, sobretudo em situações de stress, e uma maior disponibilidade para lidar com as pessoas.
Sensibilizaram-se pelos vários tipos de violência e a ressonância entre a violência exterior e interior. Melhoraram a qualidade da sua intervenção.
Foi sobretudo em casos de violência (doméstica) que foi experienciado o tema do género. Em geral é o homem que exerce violência física. Os tandens eram essencialmente femininos e as coachees aperceberam-se do papel do género na sua própria reacção à violência e sobretudo aos agressores. Entrando em contacto consigo própri@s a um nível mais profundo, perceberam que o masculino e o feminino são complementares e a violência não é o apanágio de uns em detrimento dos outros.
A tomada de consciência da interligação, de todos os seres humanos, alertou para a capacidade e a responsabilidade de todos.
A elaboração de um portfólio foi encarada como um meio de auto-reflexão eficaz para @s própri@s técnic@s e também para certos grupos de pessoas com quem trabalham.

Conclusão
Através do processo de coaching dirigido a pessoas que têm uma intervenção na sociedade vai-se a pouco e pouco aumentar a consciência de todos. O trabalho interior abre para uma maior interligação com toda a comunidade e aumenta a disponibilidade para interagir de uma maneira mais livre e mais respeitosa para o bem de todos.

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1 POPH – 9.7.3
2 Trabalho em tandem = trabalho em complementariedade. Um tandem é uma bicicleta com 2 lugares.
3 Técnicos de experiência formados em exclusão social são pessoas que experimentaram pessoalmente a exclusão, que conseguiram lidar com essa experiência e que assim estenderam-na para uma experiência mais alargada sobre a exclusão. Adquiriram atitudes, capacidades e conhecimento através da sua formação de modo a utilizar a sua experiência de exclusão profissionalmente em qualquer área de luta contra a exclusão.

Desenvolvimento sócio-local para o ‘Empowerment’

Centro Cultural de Belém 21 de Setembro 1999

Construímos, nós próprios, as nossas casas no Alto da Cova da Moura, um bairro da Amadora, na fronteira de Lisboa onde residem mais de 6000 habitantes, metade com menos de 20 anos. A maioria da população é de origem africana.
A construção das casas foi feita à noite e durante os fins de semana, depois do trabalho nas empresas de limpezas, nas casas dos patrões, nas ‘obras’. Num “djunta mon”, num juntar das mãos.
A construção das casas, os moradores aprenderam nas ‘Obras’ como serventes. Os sonhos ajudaram a traçar as linhas da cozinha, dos quartos. Tudo feito sem arquitecto ou engenheiro.
Estamos conscientes que muitas casas têm deficiências, que com um mínimo de apoio podiam ter sido evitadas. Estamos conscientes que, com apoio, os alicerces podiam ser mais seguros, as divisões mais adaptadas. Falharam estes apoios ou foram insuficientes.
São os moradores do Alto Cova da Moura que cultivam as hortas, nas bermas das estradas ao pé da Força Aérea em Alfragide. Apesar de todas as dificuldades, crescem couves, ervilhas, milho, abóboras e favas. Têm os conhecimentos sobre o melhor período de semear, aprenderam ao longo dos anos a composição e as características da terra Lisboeta e sabem ensinar a quem quer iniciar-se na agricultura.
Foram os moradores que construíram aos poucos, consoante as possibilidades, a sede da Associação Moinho da Juventude e foram eles que delinearam os seus projectos e actividades. No início, com recursos muito limitados, contámos com o trabalho voluntário dum engenheiro que fez os cálculos certos para a construção dos alicerces. Numa fase posterior, o apoio do FEDER permitiu pagar um Mestre de Obras. Ele ensinou aos jovens do bairro a aprendizagem dos cálculos, do desenho, das técnicas para construir o seu ‘Espaço’. Esta aquisição de conhecimentos contribuiu para que os jovens melhorassem o seu próprio habitat.
São alguns exemplos para concretizar o que queremos dizer com ‘empowerment’. Consideramos ‘Empowerment’ o processo de indivíduos e grupos locais ou comunidades que vão desenvolver as suas capacidades e vão adquirir o poder de uma participação activa
– para terem mais influência ou para serem capazes de enriquecer as suas vidas e a sociedade em que vivem,
– para aumentar as suas capacidades de modo a poderem tomar decisões, duma maneira independente, sobre o que influencia a sua vida e de modo a ter influência nas pessoas que decidem sobre eles numa aprendizagem crescente deles próprios.

Associação Cultural Moinho da JuventudeMas « empowerment » não tem só a ver com o processo de construção e desenvolvimento de capacidades, mas também com problemas estruturais : a constelação política, a dominância cultural, relações sociais.
Pretendemos que pouco a pouco cresça a disponibilidade das autoridades para terem ouvidos e olhos para as capacidades e reflexões dos moradores.
Para exemplificar: Há pouco tempo, as autoridades locais arranjaram uma das ruas do bairro, mas esqueceram-se de falar com os moradores. Se o tivessem feito, ter-se-iam apercebido da existência de muitas crianças que brincam e passam naquela rua e da necessidade de lombas para travar a velocidade dos carros. Já houve um acidente, e esperamos que não precisemos de muitos mais, para que tomem as medidas necessárias/esquecidas.
A estigmatização que pesa sobre o bairro dificulta o processo do « empowerment ». A rotulação constante do nosso bairro como sendo perigoso, um bairro onde floresce o crime, a venda de droga e prostituição, influencia negativamente a população. A rotulagem já fez interiorizar alguns sentimentos de culpa e de rejeição nos próprios moradores.
Não obstante as habitações débeis e as infra-estruturas deficientes do bairro, os moradores construíram ao longo dos anos uma comunidade, com uma riqueza de manifestações culturais, de criação de postos de trabalho, interajuda, solidariedade – Eles estiveram com um grupo de 15 jovens, mulheres e homens em frente da delegação das Nações Unidas, com tambor e bandeiras, quando chegaram as primeiras notícias das atrocidades em Timor, para exigir a intervenção das tropas da Paz.
É preciso que os orgãos públicos reconheçam este valor comunitário, tantas vezes inexistente nos bairros de realojamento ou nos bairros da classe média/alta, apoiando a população na reabilitação do seu bairro.
Empowerment tem a ver com capacidades de reflexão, de cooperar com outros, com a capacidade de tomar decisões duma maneira consciente e reflectida.
Não é fácil este processo, porque a nossa sociedade faz um constante apelo à alienação e concentração do poder. Quem está no poder, gosta de mostrar os seus galões.
Optamos na Associação Moinho da Juventude por fertilizar o desenvolvimento das capacidades dos moradores. Damos prioridade ao trabalho que estimula a participação e envolvimento dos moradores e consideramos estudos e investigações ‘sobre’ a população como secundários e muitas vezes inoportuno. Privilegiamos o processo da aprendizagem social dos moradores através da concretização dos seus projectos.
O empowerment é suportado por 4 traves mestras : ‘acção’, ‘reflexão sobre a acção’, ‘a comunicação’ e por último a trave mestra da ‘negociação’.
O Moinho da Juventude tem uma cornucópia de projectos e acções, mas queremos focar a Formação de Mediadores, o nosso Projecto Integra, subsidiado pelo FSE para ilustrar como preenchemos este empowerment a nível das 4 traves.
A estratégia do projecto ‘Formação de Mediadores’ assenta na formação de líderes locais, em geral jovens com poucas habilitações literárias mas com potencialidades latentes, que dentro do sistema existente não tiveram o devido estímulo da sociedade de acolhimento para se desenvolver.
A metodologia de base esteve relacionada com o princípio da Aprendizagem Interactiva, em que o ensino/aprendizagem/formação funciona nos dois sentidos. Desta forma a mais valia do curso não se destinava exclusivamente aos formandos, mas também aos formadores, que descobriram novos valores culturais, atitudes, conhecimentos.
O curso desenvolveu-se numa estreita interligação entre prática e teoria, acção e reflexão. Muitos dos formadores aprenderam durante este processo de formação a capitalizar as próprias experiências dos formandos.
Durante o curso de formação utilizaram-se metodologias de ‘empowerment’, nomeadamente: o ‘Planning for Real’, o ‘Silent Way’ e a metodologia DIP.
O ‘Planning for Real’ fornece instrumentos para valorizar capacidades existentes, dos moradores do bairro, para planear acções e proporciona técnicas de negociação.
A metodologia DIP é um instrumento excepcional a nível de reflexão conjunta e aprofundada de todos os envolvidos num problema.
Todo o processo da formação foi acompanhado por uma avaliação contínua entre formandos, formadores e coordenadores do projecto. A avaliação contínua permitiu um reajustamento dos objectivos e metodologias durante as várias fases do projecto.
Todas as actividades compreenderam também uma responsabilização individual e de grupo na óptica da integração dos jovens formandos no mundo do trabalho, numa nova profissão que tinha e continua a ter de conquistar as suas credenciais nesta sociedade. Foi um processo de negociação com as autoridades, que através da publicação do Despacho 304/98 de 24.4.98 no Diário da Republica, deu um primeiro impulso ao reconhecimento do curriculum e perfil dos Mediadores, um novo Serviço de Proximidade, aqui em Portugal.
O testemunho da Denise, uma das formandas do Curso, agora a trabalhar como Mediadora na Escola básica no 3 da Buraca, esclarece com mais enfase o que dizemos.